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Moda como/é o Interface

Depois de ouvir uma entrevista com o Stephen Monteiro, Professor Auxiliar de Sociologia e Antropologia na Universidade de Concordia, Montreal, sobre o seu livro “The Fabric of Interface”, editada pela MIT Press, no Podcast “News Books on Technology”, algo se iluminou na minha mente sobre este assunto – e outros relacionados com este.

No seu livro, Stephen escreve sobre os gestos, profissões e ofícios relacionados com o fabrico dos têxteis que levaram ao desenvolvimento dos interfaces e à programação, e como vários destes termos e experiências foram determinantes para a evolução do mundo tecnológico. Actividades como tocar no ecrã, scroll, swipe, pinch são deveras familiares no mundo dos dispositivos digitais, e, ainda assim, todas estas actividades já existiam previamente na indústria têxtil.

Já tinha ouvido falar da forma como os teares de cartões perfurados lançaram as bases para o desenvolvimento computacional, mas a forma como Stephen Monteiro apresenta alguns factos curiosos é maravilhosa. Fala de como os players na indústria têxtil induziu a evolução dos computadores, nomeadamente relacionado com os papéis desempenhados pelas mulheres nos anos do pós-guerra, levando-a a tornarem-se especialistas nos seus próprios ofícios: manufactura, skills labour-intensive, programação – devido à falta de homens em posições como estas, devido à guerra. Daí o livro também falar sobre género. Tanto porque algumas das tarefas era naturais ao universo familiar, ou porque as mulheres terem tido que chegar-se à frente para ocupar alguns trabalhos que foram deixados vagos devido à falta de homens na força laboral.

Dentro das minhas áreas de estudo, sempre tive muita inclinação para compreender e estudar a forma como a moda – no seu sentido mais lato de peça de vestuário vestível – se tornou um interface para os humanos, interagindo com os sistemas com os quais conectam. De acordo com o Cambridge Dictionary, o interface é tanto uma como outra, e ambas as definições de “uma conexão entre duas peças de equipamento electrónico, ou entre uma pessoa e um computador” e “uma situação, forma ou lugar onde duas coisas se juntam e se afectam uma à outra”.

Para mim, ambas as definições podem ser usadas de forma intercambiável, uma vez que eu vejo a conexão como uma interacção, e, quer a interacção seja entre uma pessoa e um computador, uma pessoa e outra pessoa, ou entre uma pessoa e um sistema no qual a pessoa está presente, todos os intervenientes são sistemas, capazes de interacção, passiva ou activamente. Reconheço o interface como um mediador passivo – ou activo – entre dois sistemas.

A esta luz, podemos visar e discutir as peças de vestuário – ou de moda – como um interface, desde a primeira vez que o Homem teve que se cobrir com roupas … ou peles de animais. A peça de vestuário era o mediador da interacção entre os indivíduos humanos e o ambiente físico em que viviam. Muitos séculos depois, as indumentárias tinham diferentes interpretações, no significado da mediação, devido a motivações culturais, societárias, militares e religiosas.

Se nos referirmos a outras culturas e comunidades, passadas e presentes, os Incas usavam trajes e toucados cerimoniais coloridos para realizar rituais religiosos e mediar a ligação com o Divino, enquanto os guerreiros Zulu usavam pinturas faciais e máscaras ou toucados artesanais, com peças feitas de palha à volta do tronco e das pernas para irem para a guerra e amedrontarem o inimigo, e os Tuaregues usam indumentárias tingidas de indigo para os proteger do calor extremo do deserto. Por vezes, o traje tradicional de uma determinada cultura é imposto por estrangeiros, como o caso do traje Boliviano da Cholita Pollera (“Chola” significa “mulher”, em espanhol, e este conceito identificava mulheres mestiças ou, pejorativamente, “arraçados” ou “índio civilizado”), imposto pelos colonizadores Espanhóis e, depois, adoptado pelas mulheres Aymara como um símbolo de herança indígena.

Guerreiro Zulu (fundo, terceito a contar da esquerda) entre outros trajes tradicionais de Países Africanos

Nos séculos posteriores, e dependendo do país, da posição social e do papel ou função, riqueza ou influência religiosa ou militar, as indumentárias mediadas pelas convenções tradicionais ou socialmente acordadas comunicavam mensagens específicas e características, como o respeito, deferência ou atenção que cada um merecia receber, independentemente de quem eram enquanto indivíduos.

Apenas no século XX, o vestuário começou a ser compreendido como uma declaração visual de comunicação e exibindo a personalidade do indivíduo que as usa. Finalmente, muitos milénios de o Homem ter coberto o corpo com peles, o ser humano conseguiu comunicar a sua personalidade a outro sistema à sua volta, numa forma única e singular, através da moda, enquanto o interface-vestuário ainda cumpria as suas funções primárias – protecção e conforto – , e as funções sociais foram alargadas – mais e mais diversas tribos e grupos urbanos na mesma cultura alargada usavam vestuário como uniformes para comunicar a sua unidade, os seus ideais e o seu lifestyle. Alguns destes exemplos são os Hippies, como a subversão do status quo e as manifestações contra a guerra, os Panteras Negras, como desobedientes civis pelos direitos iguais, e os Yuppies, como a subversão da subversão.

Hippies HLD/ASSOCIATED PRESS
Black Panthers

Comercialmente, e com a criação dos centros comerciais e das compras por catálogo, especialmente desde meados dos anos 70 do século XX, pudemos adicionar uma nova dimensão ao interface vestuário: as opções de moda individualizada aumentaram e tornaram possível a cada indivíduo comunicar a sua intenção pessoal, assim como as suas escolhas para a perversão das normas de vestuário da sociedade, que divergiam mais nos interfaces individuais – mediando a relação e comunicação com os outros – e a diversificação dos interfaces-moda de performance para espectáculos musicais, cinematográficos e teatrais, agora possíveis com novas tecnologias disponíveis.

Se definirmos mediação passiva do interface como a personalização para a comunicação de quem somos enquanto indivíduos, observamo-la como uma peça de vestuário estática, ainda que emergindo da nossa personalidade, não-interactiva. Serve como uma “barreira” entre nós e o outro sistema e um “ecrã de comunicação” de quem nós somos. Outras pessoas podem “aceder-lhe” para chegar até nós. Nesta linha de pensamento, todas as mediações activas do interface aconteceriam quando e se houvesse uma interacção física – ou lógica – dinâmica com os sistemas à nossa volta, quer fossem pessoas ou ambientes.

Algumas mediações passivas do interface – que existem como um objecto inalterável de comunicação individual – podem ser alcançadas através da personalização, seja através de uma skill de manualidades que aplicamos ao nosso vestuário, como uma camisola dos anos 80 que pedimos às nossas avós para nos fazerem. No século XXI, uma nova tendência de mercado pretendia atingir a personalização de projectos comerciais, como a customização em massa que a Nike implementou em 2009, com o Nike ID, no qual podíamos personalizar as sapatilhas feitas em massa da nossas escolha no website da Nike.

Quando falamos de mediações activas do interface no vestuário – que existe enquanto um objecto mutável de comunicação e interacção individual -, podemos apontar alguns exemplos como os têxteis que mudam de cor, alguns tecidos repelentes à água que interagem com elementos físicos, ou alguns acessórios ou gadgets que permitem abrir a porta de casa ou pagar as contas com tecnologia NFC. No campo das sapatilhas, a mediação activa dos interfaces foi tornada disponível em determinada escala com as sapatilhas com luzes nas solas, operadas por impacto, para crianças e adolescentes, nos quais cada passo dado despoletava uma luz LED no calcanhar da sapatilha. Esta é uma definição lata daquilo que trata a definição do que é o vestuário, mas eu considero que podemos aproximar-nos mais da nossa pele e de quem nós somos, individualmente.

As previsões para o futuro que as sociedades ocidentais projectaram, a partir dos anos 50, colocavam-nos num futuro muito moderno e tecnológico, nomeadamente no âmbito do vestuário. Não obstante, além dos interfaces tecnologicamente activos, como os computadores, electrodomésticos domésticos smart, smartwatches, smartphones e smart cars, ainda estamos por ter disponíveis verdadeiro vestuário ou têxteis de interfaces activos, e ainda estamos à espera que as inovações cheguem ao mercado.

50 anos à frente, ainda não estamos a recolher os benefícios da evolução tecnológica que temos ao nosso dispor.

O que nos impede?

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